O mito

“Tudo o que implique contradição não está no âmbito da omnipotência divina”

  Tomas de Aquino

Sheol

Acender uma vela a Deus e a outra a Lúcifer na esperança de que em algum tempo se reconciliem é uma inconsistência lógica. Uma vez realizada a ruptura entre os simbolismos que estas duas figuras representam Não há outra alternativa senão a eliminação mutua ou a extinção de um em função ao outro. Seria muito simplista afirmar que o mito da queda dos anjos se resume em imaginar que um belo dia em que Deus, acordando de mau humor, ao olhar a face de Lúcifer, seu melhor reflexo, não gostou do que viu e num acesso de ira decidiu lançar fora seu melhor espelho. Teria  acontecido depois da criação, não existia dia antes disso e não se tem noticia que tenha repousado antes de inventar o dia. Além do mais todos os dogmas religiosos afirmam taxativamente que Deus não é suscetível à ira e devido à sua natureza benigna  não teria a menor disposição de fazer alguma coisa má. Então como surgiu o conflito se já sabemos que,  segundo o que ditam os dogmas, pela sua natureza perfeita Deus não erra? Presumo que Lúcifer, sendo reflexo mais perfeito e anjo preferido também era impecável em suas atitudes e prerrogativas de Anjo. Não tenho dúvidas, Lúcifer e seus seguidores, não existem mais O Senhor Todo Poderoso persiste solitário e absoluto e certamente lamentando a ausência eterna daquele que foi o seu melhor e único consorte. Ele existe como lembrança, uma espécie de sombra do passado e sua simples menção  ou mesmo a de todos aqueles que se pactuaram com sua rebeldia só é útil para assustar crianças desobedientes e fiéis crédulos. A revelação é sempre prescrita em lugares edificantes. Imagine que eu tivesse a recebido de um ser que esteve lá, em meio a um mirante do alto de um penhasco, sentados em desconfortáveis cadeiras de ferro fundido cheias de broqéis e arabescos decorativos  em volta de uma mesa e debaixo de um volumoso guarda sol, ouvi atentamente o relato de uma espécie de anjo caído sobrevivente enquanto observamos o oceano e tomávamos uma bebida qualquer a base de limão e muita glicose:

“Eu vi quando  brigaram pela primeira vez, antes éramos todos parceiros todos nós tínhamos atribuições e prerrogativas, e cada um as aplicava exclusivamente para os desígnios da determinação de tudo o que existe. Lúcifer, o primeiro a ser criado por ele tinha o atributo da iluminação, Quando foi dito: ‘faça-se a luz’ era Lúcifer quem estava sendo criado. A ele foi determinado que servisse de referencia para toda a medida de perfeição. E o primeiro anjo cumpriu muito bem seu papel. Ainda que involuntariamente e sem consciência disso vocês, humanos foram o instrumento da discórdia. Como? Esta lá em todos os apócrifos judaicos, cristãos, na tradição da cabala e no alcorão. Depois de ter criado homem e amado sua criação mais recente O Senhor Deus exigiu que nós anjos nos curvassem diante daquela criatura desengonçada e imperfeita que chamam  de Adão. Ele era a primeira encarnação do verbo, estávamos orgulhosos dela e queríamos celebra-la.  aliás ele e ela, por que foram feitos macho e fêmea com está escrito, ambos estavam lá, dois bebês. Como não poderia deixar de ser o primeiro a se insurgir foi Lúcifer.

‘A primeira encarnação do verbo precisa ser reverenciada, curven-se diante dela.’

‘Não vejo o menor sentido que nós anjos prestemos reverencia esta coisa imperfeita, que certamente vai precisar de eternidades para chegar a nosso nível’

‘Eu sou o ordenador, executor e aquele que determina toda a existência, minha prerrogativa e atributo é exigir obediência. Eu digo, e o que é dito se realiza. O que te faz imaginar que tem direito de quebrar essa regra, iluminado Lúcifer?’

‘Ordene quantas vezes quiser e não verá em mim a menor oposição em  curvar me diante do Criador, mas prestar reverencia ao imperfeito vai contra todas  as atribuições que o próprio criador me impôs. Não vejo consistência no que está sendo ordenado.’

criador e iluminado estavam face a face, contritos em sua tensão

‘A questão é muito fácil de ser resolvida Iluminado – faces mais próximas e em tom claro e taxativo – Faça o que ordeno, curve-se diante da minha mais recente criação.’

‘Se eu me curvar a ele vou me curvar à imperfeição. Eu não posso’

‘Curvar se a ela será uma reverencia a mim’

‘Não posso’

‘Sei que tendo te atribuído como um ser da medida de perfeição, referendar uma criatura imperfeita será inadequado, e ato de desobediência segundo tuas prescrições. Mas neste memento determino que o adequado é realizar incondicionalmente o que digo.’

‘Isso vai contra toda e qualquer sabedoria, lógica ou racionalidade. O Senhor Deus, Criador de tudo o que existe, tem certeza que esta em condições de continuar sozinho ditando os rumos da existência?’

Consternação total no céu, não era necessário ser anjo pra imaginar o rumo que aquilo ia tomar. Rebelião, revolução, contestação, sectarismo, dissidência, questionamento, tudo isso estava sendo criado ali, naquele memento. Exigir obediência quando se sabe que não há a menor disposição em obedecer também era algo novo. Em uma fração infinitesimal de tempo dois seres superiores  pensaram e criaram  juntos um conceito que também não existia antes: a extinção, o aniquilamento, o extermínio. A morte. Quando criado, o anjo da morte também foi impassível em suas atribuições:

‘Só posso obedecer servir ao mais poderoso’

O mais obediente e o mais fiel anjo postou-se inevitavelmente ao lado de seu senhor e deu referendo à sentença do anjo da morte. Lúcifer e os que se juntaram a ele não podiam enfrentar sozinhos as três figuras e maioria de seres angelicais que se puseram ao lado daquele que determinou as primeiras coisas. Por definição aquele que criou tudo do nada era o mais poderoso. Nem Lúcifer podia fugir a esta lógica, como amante da lógica sentiu-se obrigado a render-se a seu destino. Tanto ele quanto os que se rebelaram ao seu lado. Foram entregues ao anjo da morte e condenados a viver eternamente no universo da inexistência. Lucas 10:18 é a descrição perfeita do resultado de tudo isso. Foi o que aconteceu, o resto é lenda.”

Por mais que desejasse e tivesse poder para isso Deus está totalmente impedido de reabilitar Lúcifer e traze-lo de volta a existência. Os dois conhecem os riscos de um novo confronto. E o ressentimento é colossal, vocês mesmos viram que ele preferiu se fazer homem, ser humilhado e morto por humanos e ressuscitar, a ter que reabilitar Lúcifer. Com poder concentrado teve de estabelecer sozinho o certo e o errado, o bom e o mal, o bonito e o feio, o justo e o injusto. Lúcifer era quem fazia isso antes da ruptura. Toda a vez que enfrenta desobediência, lembra do dia em que perdeu seu melhor anjo.

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